Dificuldades para pagar as contas, endividamento e renda insuficiente podem aumentar a preocupação e comprometer o bem-estar. Entenda a relação e veja caminhos para começar a reorganizar a vida financeira.
Dinheiro não é apenas uma questão de números. Quando as contas deixam de fechar, as dívidas se acumulam e a renda não é suficiente para cobrir as necessidades básicas, a preocupação financeira pode passar a ocupar grande parte da rotina.
Uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN) em parceria com o Instituto Axxus ajuda a dimensionar esse cenário. O levantamento ouviu mil brasileiros com diagnósticos formais de ansiedade, depressão, estresse crônico ou síndrome de burnout e mostrou que as dificuldades financeiras aparecem entre os fatores relacionados ao sofrimento emocional relatado pelos participantes.
Isso não significa que problemas financeiros sejam, isoladamente, responsáveis pelo desenvolvimento de transtornos mentais. A saúde mental é influenciada por diversos fatores. O dado, porém, mostra que a situação financeira pode ter um peso importante na percepção de bem-estar de quem enfrenta dificuldades econômicas.
Como os problemas financeiros podem afetar a saúde mental?
Quando existe uma dívida que não pode ser paga, uma conta vencida ou a preocupação constante com a falta de dinheiro, a pessoa pode permanecer em um estado contínuo de preocupação.
A dificuldade financeira também pode afetar decisões cotidianas. O indivíduo pode começar a evitar situações sociais, adiar cuidados pessoais, perder o sono pensando nas contas ou sentir culpa por não conseguir proporcionar determinadas condições à família.
A professora Renata Alves Paes, do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), destaca que a instabilidade financeira pode contribuir para um estado prolongado de alerta e estresse.
Por isso, olhar para a saúde financeira também significa considerar os impactos que a desorganização financeira pode produzir na qualidade de vida.
Quais problemas financeiros mais preocupam os brasileiros?
A pesquisa da ABEFIN e do Instituto Axxus identificou diferentes dificuldades enfrentadas pelos participantes.
Entre os problemas mencionados estão:
- dificuldade para pagar contas básicas: 69,4%;
- existência de dívidas: 61,2%;
- renda insuficiente para as necessidades do dia a dia: 53,6%;
- desemprego: 31,1%.
Os números mostram que a questão financeira não se resume ao fato de uma pessoa ter ou não o nome negativado. A insuficiência de renda, por exemplo, pode gerar dificuldades antes mesmo que uma dívida seja formalizada.
Também é importante considerar que fatores econômicos e comportamentais podem se combinar. Inflação, desemprego, redução de renda e aumento do custo de vida podem comprometer o orçamento, enquanto falta de planejamento e consumo sem consciência podem agravar a situação.
Endividamento pode virar um ciclo difícil de interromper
Uma das dificuldades enfrentadas por quem está endividado é a sensação de que não existe saída.
Uma dívida pode levar à contratação de outra. O cartão de crédito pode ser utilizado para pagar despesas básicas. Um empréstimo pode ser contratado para quitar uma parcela anterior. Aos poucos, o orçamento passa a ser consumido por compromissos assumidos no passado.
Esse processo pode criar um ciclo de endividamento, no qual a renda do mês já chega comprometida antes mesmo de as novas despesas aparecerem.
Por isso, sair das dívidas não depende apenas de conseguir um desconto ou uma renegociação. É necessário entender como o endividamento começou e o que precisa mudar para que ele não volte a acontecer.
O que fazer quando as dívidas começam a afetar o emocional?
O primeiro passo é reconhecer que o problema existe.
Ignorar ligações, deixar de abrir mensagens de cobrança ou evitar olhar o saldo bancário pode proporcionar um alívio momentâneo, mas não resolve a situação.
Uma alternativa é transformar uma preocupação genérica em um diagnóstico concreto da vida financeira. Isso significa reunir as dívidas, identificar valores, prazos e juros, verificar quanto entra e quanto sai todos os meses e estabelecer quais compromissos precisam ser priorizados.
Também é importante não tentar resolver tudo de uma vez.
Uma pessoa endividada pode não ter condições de quitar imediatamente todas as suas obrigações. Ainda assim, pode começar a organizar as informações, interromper a contratação de novas dívidas, procurar alternativas de negociação e estabelecer pequenas metas.
Ter um plano pode ajudar a recuperar a percepção de que existe alguma capacidade de ação sobre a própria situação.
Como a educação financeira pode ajudar?
A educação financeira não deve ser entendida apenas como uma forma de aprender a fazer contas.
Ela também envolve comportamento, escolhas e prioridades.
Quando uma pessoa entende sua realidade financeira, consegue identificar quais gastos são necessários, quais podem ser reduzidos, quais sonhos precisam ser priorizados e quanto pode ser destinado à realização de cada objetivo.
É essa mudança de comportamento que está no centro da Metodologia DSOP, baseada em quatro pilares:
Diagnosticar: conhecer a situação financeira atual, incluindo receitas, despesas, dívidas e hábitos de consumo.
Sonhar: definir objetivos que façam sentido para a pessoa ou para a família e estabelecer prioridades.
Orçar: organizar o dinheiro de acordo com a realidade financeira e com os sonhos definidos.
Poupar: criar o hábito de reservar dinheiro para objetivos e para a construção de uma reserva financeira.
Essa sequência ajuda a tirar o foco exclusivamente da dívida e a construir uma visão mais ampla sobre a vida financeira.
Por que cuidar da saúde financeira também é cuidar do futuro?
Resolver uma dívida é importante, mas o objetivo da educação financeira não deve ser apenas deixar de estar inadimplente.
É preciso criar condições para que a pessoa consiga tomar decisões diferentes no futuro.
Isso envolve aprender a identificar os próprios limites, planejar compras, evitar o uso automático do crédito, construir uma reserva e estabelecer objetivos possíveis.
Quando existe planejamento, o futuro deixa de ser apenas uma fonte de preocupação e passa a ser algo sobre o qual é possível agir.
Quando procurar ajuda psicológica?
Se as dificuldades financeiras estiverem acompanhadas de ansiedade intensa, tristeza persistente, alterações importantes no sono, sensação de desesperança ou dificuldade para realizar atividades cotidianas, buscar atendimento de um profissional de saúde mental pode ser importante.
A organização financeira pode ajudar a enfrentar a origem ou parte do problema econômico, mas não substitui o acompanhamento psicológico ou médico quando ele é necessário.
Também não é preciso esperar que a situação chegue ao limite para procurar ajuda.
Onde buscar ajuda para organizar as finanças?
Quem está enfrentando endividamento ou dificuldade para organizar o orçamento pode procurar serviços de orientação financeira e defesa do consumidor.
Entre as alternativas estão:
Defensoria Pública: pode oferecer orientação em situações envolvendo superendividamento e defesa dos direitos do consumidor.
Procons: os órgãos de defesa do consumidor podem orientar sobre negociações, cobranças e direitos relacionados às relações de consumo.
Serasa Limpa Nome: permite consultar e negociar determinadas dívidas diretamente com empresas parceiras.
Programas de educação financeira: instituições e projetos especializados podem ajudar a organizar orçamento, dívidas e planejamento financeiro.
Antes de aceitar uma renegociação, é importante verificar se a parcela realmente cabe no orçamento. Uma negociação que cria uma nova obrigação impossível de pagar pode apenas prolongar o problema.
Onde procurar atendimento psicológico gratuito ou a preço acessível?
Quem não tem condições de arcar com um atendimento particular pode buscar serviços públicos, clínicas-escola de universidades e instituições que oferecem atendimento psicológico gratuito ou a preços populares.
Universidades que mantêm cursos de Psicologia frequentemente oferecem clínicas-escola nas quais estudantes realizam atendimentos supervisionados por profissionais.
Também é possível buscar orientação na rede pública de saúde e verificar quais serviços estão disponíveis na cidade ou região.
Como a disponibilidade, os critérios de atendimento e os horários podem mudar, é importante confirmar diretamente com a instituição antes de procurar o serviço.
É possível reorganizar a vida financeira mesmo estando endividado?
Sim. Estar endividado não significa que a pessoa perdeu definitivamente a capacidade de organizar sua vida financeira.
O processo começa pelo diagnóstico da realidade, passa pela definição de prioridades e pode incluir negociação das dívidas dentro da capacidade de pagamento.
O mais importante é evitar novas decisões que agravem o problema enquanto a situação anterior ainda está sendo reorganizada.
Também é fundamental compreender que educação financeira não é sinônimo de privação. O objetivo é fazer escolhas conscientes, equilibrando necessidades, desejos, prioridades e possibilidades.
Saúde financeira e saúde emocional precisam ser olhadas juntas
Os problemas financeiros podem ultrapassar o orçamento e afetar diferentes áreas da vida. Preocupação constante com dinheiro, dívidas acumuladas e falta de perspectiva podem aumentar o sofrimento de quem já enfrenta dificuldades emocionais.
Por isso, a solução também precisa ser vista de maneira ampla.
Cuidar da saúde financeira significa compreender a própria realidade, buscar ajuda quando necessário e desenvolver comportamentos que permitam tomar decisões mais conscientes. Da mesma forma, quando o sofrimento emocional é significativo, o acompanhamento de profissionais especializados deve fazer parte desse cuidado.
Não é preciso resolver toda a vida financeira em um único dia. O primeiro passo pode ser simplesmente diagnosticar a situação, entender as prioridades e escolher uma ação possível para começar.
Esse é justamente o princípio da educação financeira: transformar preocupação em consciência, consciência em planejamento e planejamento em escolhas capazes de construir um futuro mais equilibrado.