Reinaldo Domingos
RESUMO
As dificuldades financeiras podem comprometer diferentes dimensões do bem-estar, incluindo a qualidade do sono, as relações familiares, o humor e a capacidade de manter atividades profissionais e sociais. Este artigo analisa os resultados da pesquisa O Impacto das Dificuldades Financeiras na Saúde Mental, iniciativa da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN), realizada pelo Instituto Axxus em abril de 2026.
O estudo reuniu mil pessoas de diferentes regiões do Brasil, todas com diagnóstico prévio de transtornos de saúde mental. Os resultados indicam que 34,6% dos participantes apontaram as dificuldades financeiras como principal gatilho de seu quadro clínico. Além disso, 59,5% classificaram a contribuição dos problemas financeiros para o diagnóstico como exclusiva ou predominante. As preocupações com contas básicas foram relatadas por 69,4% da amostra, enquanto 61,2% mencionaram dificuldades para quitar dívidas.
O estudo também identificou pessimismo em relação à situação financeira futura e baixa procura por orientação especializada em educação financeira. Os resultados são discutidos à luz da literatura sobre estresse financeiro e saúde mental, considerando as limitações metodológicas da pesquisa. Conclui-se que a educação financeira pode integrar estratégias de prevenção e enfrentamento das dificuldades econômicas, desde que articulada ao atendimento em saúde mental e a políticas públicas de proteção social e geração de renda.
Palavras-chave: Educação financeira. Saúde mental. Endividamento. Estresse financeiro. Bem-estar financeiro.
1. INTRODUÇÃO
Como as dificuldades financeiras se relacionam com a saúde mental
A saúde mental e a estabilidade financeira estão relacionadas a dimensões fundamentais da qualidade de vida. A capacidade de pagar despesas essenciais, administrar compromissos financeiros e planejar o futuro contribui para a percepção de segurança e autonomia. Quando essas condições são comprometidas, as preocupações com dinheiro podem ocupar parcela significativa da rotina, interferindo no sono, no humor, nas relações familiares e no desempenho profissional.
O problema não se restringe à ausência de recursos. O endividamento, a instabilidade da renda, o receio de perder o emprego e a dificuldade de visualizar uma saída para os compromissos financeiros podem produzir uma sensação persistente de insegurança. Ao mesmo tempo, o adoecimento psicológico pode dificultar a organização das finanças, a tomada de decisões e a manutenção da atividade profissional, criando um ciclo de vulnerabilidade.
Uma revisão sistemática de 40 estudos observacionais publicada por Guan et al. (2022) identificou associação positiva entre diferentes formas de estresse financeiro e sintomas de depressão em adultos. Os autores também ressaltaram que a relação pode envolver diferentes mecanismos e que são necessárias pesquisas longitudinais para compreender melhor a direção e os fatores que explicam essa associação.
Nesse contexto, a educação financeira deve ser compreendida para além do controle de gastos ou da escolha de produtos financeiros. Ela pode contribuir para o diagnóstico da situação econômica, a identificação de prioridades, a organização dos compromissos e a construção de estratégias compatíveis com a realidade de cada pessoa. Entretanto, o conhecimento financeiro, isoladamente, não elimina situações de desemprego, insuficiência de renda ou ausência de proteção social.
A pesquisa O Impacto das Dificuldades Financeiras na Saúde Mental, iniciativa da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN) e realizada pelo Instituto Axxus, em abril de 2026, oferece elementos para investigar como pessoas previamente diagnosticadas com transtornos de saúde mental percebem a participação dos problemas financeiros em seu adoecimento.
O objetivo deste artigo é analisar os principais resultados desse levantamento, com atenção à contribuição percebida das dificuldades financeiras para os diagnósticos, às áreas da vida afetadas, às diferenças entre grupos sociodemográficos e à procura por orientação financeira. Busca-se, ainda, discutir as possibilidades e os limites da educação financeira como parte de uma abordagem integrada de promoção do bem-estar.
2. METODOLOGIA
Pesquisa sobre dificuldades financeiras e saúde mental: fonte e amostra
Este artigo utiliza como fonte empírica o relatório O Impacto das Dificuldades Financeiras na Saúde Mental, iniciativa da ABEFIN e realizado pelo Instituto Axxus em abril de 2026, sob responsabilidade técnica do professor Rodnei Domingues.
Segundo o relatório, foram entrevistadas presencialmente mil pessoas de diferentes regiões do Brasil, todas com diagnóstico formal prévio de ansiedade, depressão, estresse crônico ou síndrome de Burnout, entre outras condições contempladas no levantamento. As entrevistas foram conduzidas por psicólogos treinados, utilizando roteiro semiestruturado e abordagem em profundidade.
Foram excluídos indivíduos em crise psicológica aguda, sem capacidade cognitiva para consentimento ou com determinadas condições neurológicas e psiquiátricas descritas no relatório. A amostra foi composta por 53,4% de mulheres e 46,6% de homens. Quanto à idade, 26,6% tinham entre 18 e 30 anos, 26,4% entre 31 e 45 anos, 23,5% entre 46 e 60 anos e 23,5% mais de 60 anos.
A distribuição por classe social foi de 5,3% na classe A, 13,2% na classe B, 60,5% na classe C e 21,0% na classe D. Geograficamente, 41,7% dos participantes eram do Sudeste, 26,9% do Nordeste, 14,6% do Sul, 8,8% do Norte e 8,0% do Centro-Oeste.
A análise desenvolvida neste artigo é descritiva e interpretativa. Os percentuais são apresentados conforme o relatório original, com cálculos aritméticos simples quando explicitados. A literatura científica é utilizada para contextualizar os achados, sem presumir equivalência entre populações, instrumentos ou métodos de pesquisa.
Limitações da pesquisa sobre dificuldades financeiras e saúde mental
É importante registrar uma limitação metodológica: embora o relatório caracterize o levantamento como qualitativo, os resultados disponibilizados são apresentados predominantemente em percentuais e distribuições numéricas. Não foram fornecidos, no material analisado, o plano completo de amostragem, os procedimentos de recrutamento, os instrumentos integrais, os microdados, os intervalos de confiança ou os testes estatísticos. Por esse motivo, os resultados são tratados como descrições da amostra, sem generalização automática para a população brasileira.
Também não se considera que a percepção dos participantes, por si só, comprove que os problemas financeiros causaram os diagnósticos clínicos. O levantamento investiga a contribuição percebida pelos entrevistados, não estabelece temporalidade nem isola outros fatores que possam influenciar a saúde mental.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1. Perfil de saúde mental e percepção da situação financeira
Diagnósticos de saúde mental e percepção da situação financeira
A pesquisa reuniu pessoas com diagnóstico prévio de transtornos de saúde mental, condição que delimita a interpretação dos resultados. Portanto, os percentuais apresentados nesta seção não representam a prevalência desses transtornos entre todos os brasileiros, mas sua ocorrência declarada dentro da amostra investigada.
A ansiedade foi mencionada por 47,3% dos participantes, seguida por depressão (39,1%), estresse (34,6%) e síndrome de Burnout (26,4%). Também foram registrados TDAH (5,4%) e transtorno obsessivo-compulsivo (2,0%). Como as categorias não são necessariamente excludentes, os percentuais não devem ser somados para estimar o total de pessoas diagnosticadas.
A percepção da situação financeira revelou que 44,5% classificaram suas condições como razoáveis e 27,1% como ruins. Apenas 24,7% avaliaram a situação como boa e 3,7% como ótima.
Tabela 1. Percepção da situação financeira atual dos participantes
| Avaliação declarada | Participantes (%) |
|---|---|
| Ótima | 3,7 |
| Boa | 24,7 |
| Razoável | 44,5 |
| Ruim | 27,1 |
| Total | 100,0 |
Fonte: Elaboração própria com base em ABEFIN/Instituto Axxus (2026).
A soma dos participantes que avaliaram a situação financeira como razoável ou ruim corresponde a 71,6% da amostra. Esse resultado evidencia que a percepção de segurança econômica era limitada para parcela expressiva dos entrevistados.
A avaliação subjetiva da situação financeira é relevante porque a preocupação não depende exclusivamente do valor absoluto da renda ou do montante das dívidas. A previsibilidade dos recebimentos, a capacidade de arcar com despesas essenciais e a percepção de controle sobre as próprias decisões também influenciam a maneira como as pessoas vivenciam suas condições econômicas.
Entre os desafios financeiros identificados, 69,4% mencionaram o pagamento das contas básicas, 61,2% apontaram dificuldades para quitar dívidas, 53,6% relataram renda insuficiente e 31,1% indicaram o desemprego.
Esses resultados sugerem que as preocupações financeiras da amostra não se limitam ao planejamento de longo prazo. Elas envolvem necessidades imediatas, como alimentação, moradia, serviços essenciais e compromissos já assumidos.
Quando o orçamento não comporta as despesas básicas, as possibilidades de reorganização tornam-se mais restritas. A pessoa pode precisar escolher quais contas pagar, renegociar compromissos ou recorrer a crédito para manter o consumo essencial. Nessas circunstâncias, a educação financeira pode ajudar a identificar prioridades e avaliar alternativas, mas não substitui os recursos necessários para cobrir despesas que superam a renda disponível.
3.2. Dificuldades financeiras como gatilho percebido do adoecimento
Dificuldades financeiras como principal gatilho percebido do adoecimento
Um dos resultados centrais da pesquisa está na identificação dos fatores que os participantes relacionaram ao surgimento de seus quadros de saúde mental.
As dificuldades financeiras foram apontadas por 34,6% dos entrevistados como principal gatilho. Em seguida, apareceram dificuldades no trabalho (20,5%), problemas de relacionamento (11,0%), separação (10,9%), doenças (8,3%) e luto (5,0%).
O resultado posiciona as questões financeiras como a categoria mais frequentemente mencionada entre os fatores apresentados no relatório. Essa informação, entretanto, deve ser interpretada como percepção dos participantes, e não como demonstração de causalidade clínica.
A pesquisa também perguntou em que grau os problemas financeiros contribuíram para o diagnóstico.
Tabela 2. Contribuição percebida das dificuldades financeiras para o diagnóstico
| Grau de contribuição declarado | Participantes (%) |
|---|---|
| Exclusivamente, como causa raiz | 27,1 |
| Predominantemente, como principal entre outras causas | 32,4 |
| Parcialmente, como uma das principais causas | 22,4 |
| Insignificativamente | 10,2 |
| Não contribuíram | 7,9 |
| Total | 100,0 |
Fonte: Elaboração própria com base em ABEFIN/Instituto Axxus (2026).
Somados, os grupos que classificaram a contribuição financeira como exclusiva ou predominante representam 59,5% da amostra. Quando se inclui a categoria de contribuição parcial, o percentual chega a 81,9%.
A distinção entre esses resultados é importante. O primeiro grupo reúne participantes que atribuíram aos problemas financeiros papel exclusivo ou predominante. O segundo cálculo também inclui aqueles que os consideraram uma das principais causas, sem atribuir-lhes necessariamente a maior importância.
Os dados reforçam a relevância de investigar as condições econômicas quando uma pessoa procura atendimento em saúde mental. Uma abordagem que considere apenas os sintomas, sem examinar as circunstâncias cotidianas que produzem insegurança, pode deixar de identificar fatores importantes de sofrimento.
Isso não significa reduzir transtornos psicológicos a problemas financeiros. A saúde mental é influenciada por fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais, que podem interagir de diferentes maneiras. O mesmo problema econômico pode ser vivenciado de forma distinta conforme a rede de apoio, a história de vida, as condições de trabalho e os recursos disponíveis.
A revisão de Guan et al. (2022) oferece um referencial para essa interpretação. Os autores identificaram associação entre estresse financeiro e depressão em diferentes contextos, mas destacaram a necessidade de pesquisas capazes de distinguir os mecanismos envolvidos e estabelecer melhor a temporalidade das relações observadas.
Assim, a principal contribuição dos resultados da ABEFIN é evidenciar que as dificuldades financeiras são percebidas como elemento relevante no adoecimento por um grupo de pessoas já diagnosticadas, justificando maior atenção à dimensão econômica nos processos de acolhimento e acompanhamento.
3.3. Como as dificuldades financeiras afetam o cotidiano, as relações e o trabalho
Impactos das dificuldades financeiras no humor, no sono e nas relações familiares
As preocupações financeiras não se restringem ao orçamento. De acordo com a pesquisa, os participantes relataram impactos em diferentes áreas da vida, com destaque para lazer, humor, relações familiares e sono.
Tabela 3. Áreas da vida afetadas pelas preocupações financeiras
| Área afetada | Participantes (%) |
|---|---|
| Lazer | 64,9 |
| Humor | 61,9 |
| Relações familiares | 60,1 |
| Qualidade do sono | 56,1 |
| Desempenho no trabalho | 42,8 |
| Amizades | 39,8 |
Fonte: Elaboração própria com base em ABEFIN/Instituto Axxus (2026).
Nota: Os percentuais representam áreas mencionadas pelos participantes e não são categorias mutuamente excludentes.
O lazer foi a dimensão mais citada, com 64,9%. Em contextos de restrição orçamentária, atividades de descanso, convivência e entretenimento podem ser reduzidas ou eliminadas. Embora esse ajuste possa ser necessário para reorganizar as contas, sua permanência pode comprometer oportunidades de convivência e recuperação emocional.
O humor foi mencionado por 61,9% dos participantes e as relações familiares, por 60,1%. A pressão financeira pode tornar recorrentes as conversas sobre despesas, dívidas e decisões de consumo, ampliando conflitos e preocupações. Contudo, o levantamento não permite determinar em que medida esses impactos resultam diretamente das finanças ou de outros fatores associados ao quadro clínico.
A qualidade do sono foi afetada para 56,1% dos entrevistados. A preocupação com vencimentos, cobranças e insuficiência de recursos pode dificultar o afastamento mental dos problemas cotidianos, sobretudo quando não há uma perspectiva clara de solução.
No ambiente profissional, 42,8% relataram prejuízos no desempenho. Dificuldades de concentração, cansaço e preocupações persistentes podem interferir na rotina de trabalho. Em situações de maior vulnerabilidade, o comprometimento profissional também pode reduzir a capacidade de geração de renda, criando novas dificuldades econômicas.
É possível, portanto, formular a hipótese de um ciclo de retroalimentação: os problemas financeiros ampliam a tensão cotidiana; o sofrimento psicológico pode dificultar decisões e atividades necessárias à reorganização financeira; e as consequências econômicas dessa dificuldade podem intensificar a insegurança inicial.
O relatório, por seu caráter descritivo, não comprova esse mecanismo. Ainda assim, a hipótese é compatível com a literatura sobre a associação entre dificuldades financeiras e saúde mental e merece ser investigada em estudos longitudinais.
3.4. Dificuldades financeiras e saúde mental: diferenças regionais na amostra
Como os indicadores de saúde mental e o gatilho financeiro variam por região
A distribuição regional dos resultados aponta diferenças entre os participantes entrevistados. O Norte apresentou os maiores percentuais de ansiedade (53,4%), depressão (45,5%) e estresse (39,8%). O Nordeste registrou 50,6% de ansiedade e 45,0% de depressão.
O Sudeste apresentou o maior percentual de síndrome de Burnout, com 31,2%. Já o Centro-Oeste registrou 37,5% de participantes que apontaram as dificuldades financeiras como principal gatilho, seguido pelo Sul, com 37,0%.
Tabela 4. Indicadores de saúde mental e gatilho financeiro por região
| Região | Ansiedade (%) | Depressão (%) | Estresse (%) | Burnout (%) | Gatilho financeiro (%) |
|---|---|---|---|---|---|
| Centro-Oeste | 48,8 | 43,8 | 35,0 | 25,0 | 37,5 |
| Nordeste | 50,6 | 45,0 | 34,2 | 22,3 | 29,4 |
| Norte | 53,4 | 45,5 | 39,8 | 19,3 | 34,1 |
| Sudeste | 45,1 | 35,7 | 35,0 | 31,2 | 36,7 |
| Sul | 43,2 | 31,5 | 30,8 | 25,3 | 37,0 |
Fonte: ABEFIN/Instituto Axxus (2026).
O Nordeste apresentou o menor percentual de participantes que identificaram as dificuldades financeiras como principal gatilho, embora tenha registrado índices elevados de ansiedade e depressão. Esse contraste demonstra que a distribuição dos diagnósticos relatados e a atribuição de causas não são indicadores equivalentes.
Da mesma forma, o maior percentual de Burnout no Sudeste não permite concluir que a dinâmica de trabalho da região seja a causa dessa diferença. Essa interpretação exigiria dados sobre ocupação, jornada, condições de trabalho, renda, composição da amostra e outros fatores relevantes.
As diferenças observadas devem ser entendidas como descritivas. Como o relatório disponibilizado não apresenta os tamanhos das subamostras regionais nem testes de significância, não é possível afirmar que as diferenças sejam estatisticamente robustas ou representativas das populações de cada região.
Ainda assim, os resultados reforçam a importância de evitar abordagens uniformes para problemas que podem assumir características distintas conforme as condições econômicas e sociais. A formulação de políticas e programas de educação financeira deve considerar as realidades locais, sem transformar os resultados dessa amostra em retratos definitivos de cada região brasileira.
3.5. Relação entre dificuldades financeiras e saúde mental por gênero, classe e idade
O que os dados mostram sobre gênero, classe social e faixa etária
O cruzamento dos resultados por gênero revelou diferenças nos diagnósticos relatados. Entre os homens, a ansiedade foi mencionada por 49,4%, o estresse por 36,7% e o Burnout por 26,8%. Entre as mulheres, os percentuais foram de 45,5%, 32,8% e 26,0%, respectivamente.
A depressão apresentou o padrão inverso: 42,7% entre as mulheres e 35,0% entre os homens. A atribuição das dificuldades financeiras como principal gatilho foi de 35,4% entre os homens e 33,9% entre as mulheres.
Esses resultados não devem ser interpretados como evidência de que um gênero seja naturalmente mais vulnerável a determinado transtorno. A composição da amostra, as condições de trabalho, as responsabilidades familiares, as experiências sociais e os padrões de procura por atendimento podem influenciar as diferenças observadas. O relatório não fornece elementos suficientes para testar essas explicações.
O recorte socioeconômico também apresenta um resultado relevante. Na classe A, 49,1% dos participantes apontaram as dificuldades financeiras como principal gatilho do diagnóstico, percentual superior aos aproximadamente 34% registrados nas classes C e D.
Esse achado mostra que a preocupação financeira não se limita a pessoas em condições de pobreza. A perda de renda, o comprometimento de um padrão de vida, a pressão para sustentar despesas elevadas e a insegurança diante de compromissos assumidos podem ser fontes de sofrimento em diferentes grupos socioeconômicos.
Não se pode concluir, porém, que o impacto psicológico seja objetivamente maior na classe A. O indicador mede a proporção que atribuiu às finanças o papel de principal gatilho, e não a intensidade do sofrimento, a gravidade dos transtornos ou a capacidade de recuperação de cada grupo.
A interpretação também precisa considerar o peso da amostra: as classes C e D reuniram 81,5% dos participantes, enquanto a classe A correspondeu a apenas 5,3%. O relatório não apresenta informações suficientes para avaliar a precisão dos percentuais em cada estrato.
Na distribuição por idade, a ansiedade alcançou 52,3% entre os participantes de 18 a 30 anos. A depressão chegou a 42,1% entre aqueles com mais de 60 anos. O estresse financeiro como principal gatilho foi mencionado por 36,5% dos jovens de 18 a 30 anos e 36,4% daqueles entre 31 e 45 anos.
Esses resultados sugerem que a percepção das dificuldades financeiras como fator de adoecimento está presente em diferentes etapas da vida. Entre jovens e adultos em idade produtiva, a pressão pode estar relacionada à inserção profissional, à renda, à formação de patrimônio e às responsabilidades financeiras. Em idades mais avançadas, as preocupações podem envolver a manutenção da renda, a capacidade de arcar com despesas e a segurança econômica no futuro.
Essas explicações são hipóteses interpretativas, e não relações demonstradas pelo levantamento. Para investigá-las, seriam necessários cruzamentos entre idade, renda, ocupação, endividamento, composição familiar e tipo de diagnóstico.
3.6. Pessimismo financeiro e busca por orientação em educação financeira
Expectativas sobre a situação financeira e acesso à orientação especializada
Outro resultado expressivo diz respeito às expectativas dos participantes. Enquanto 35,9% declararam estar otimistas ou muito otimistas em relação à melhora de sua saúde mental no futuro, apenas 20,0% manifestaram o mesmo nível de otimismo quanto à situação financeira.
Em sentido oposto, 67,2% apresentaram uma perspectiva pessimista ou muito pessimista em relação às próprias finanças.
A diferença sugere que a expectativa de melhora psicológica não está necessariamente acompanhada da percepção de que as condições econômicas também irão melhorar. Mesmo entre aqueles que demonstram esperança quanto à saúde mental, a situação financeira pode continuar sendo percebida como fonte de insegurança.
A pesquisa também identificou baixa procura por orientação especializada em educação financeira.
Tabela 5. Busca por orientação em educação financeira
| Situação declarada | Participantes (%) |
|---|---|
| Não procuraram orientação de educador financeiro | 48,5 |
| Procuraram e receberam ajuda profissional | 13,1 |
| Recorreram a amigos ou parentes | 22,0 |
| Procuraram ajuda especializada, mas não a encontraram | 16,4 |
| Total | 100,0 |
Fonte: Elaboração própria com base em ABEFIN/Instituto Axxus (2026).
Apenas 13,1% dos entrevistados afirmaram ter procurado e recebido ajuda profissional. Outros 16,4% relataram ter buscado orientação especializada, mas não a encontraram. Quase metade não procurou um educador financeiro, enquanto 22,0% recorreram a amigos ou parentes.
Esses resultados evidenciam uma distância entre o reconhecimento das dificuldades financeiras e o acesso à orientação especializada. Entretanto, não esclarecem por que os participantes deixaram de procurar ajuda ou não conseguiram obtê-la. Barreiras de custo, disponibilidade de profissionais, desconhecimento dos serviços e receio de expor a própria situação financeira são possibilidades que precisam ser investigadas, e não causas comprovadas pela pesquisa.
A educação financeira pode contribuir para transformar uma situação percebida como desorganizada em um conjunto de questões mais concretas: quanto entra, quanto sai, quais compromissos são prioritários, quais dívidas podem ser renegociadas e quais decisões precisam ser adiadas. Esse processo pode favorecer a percepção de controle e a identificação de alternativas viáveis.
Isso não significa que o planejamento financeiro resolva, por si só, o sofrimento psicológico. Tampouco se deve atribuir à pessoa a responsabilidade exclusiva por dificuldades decorrentes de renda insuficiente, desemprego ou condições econômicas adversas.
A orientação financeira precisa ser adequada à capacidade real de pagamento e à situação emocional de quem a procura. Em casos de adoecimento, a atuação de educadores financeiros não substitui o acompanhamento de psicólogos, psiquiatras ou outros profissionais habilitados. A articulação entre essas áreas pode, contudo, ajudar a considerar tanto as necessidades de saúde quanto os fatores econômicos que afetam a vida cotidiana.
3.7. Educação financeira no enfrentamento das dificuldades financeiras e seus impactos na saúde mental
A importância de integrar orientação financeira e acompanhamento em saúde mental
Os resultados da pesquisa apontam uma oportunidade para ampliar a integração entre educação financeira, atendimento em saúde mental e políticas públicas de proteção social.
O primeiro passo consiste em reconhecer que a dimensão financeira pode ser relevante na compreensão do sofrimento psicológico. Isso não significa transformar o profissional de saúde em consultor financeiro, mas considerar as condições econômicas relatadas pelo paciente e, quando necessário, encaminhá-lo a serviços adequados.
O segundo envolve ampliar o acesso à orientação financeira de qualidade. Programas educativos podem ajudar as pessoas a compreender sua situação, organizar compromissos, avaliar alternativas de renegociação e estabelecer prioridades compatíveis com os recursos disponíveis. O processo deve respeitar a realidade de cada família e evitar recomendações padronizadas que pressuponham renda excedente ou capacidade de poupança inexistente.
O terceiro é reconhecer que a educação financeira precisa caminhar junto com medidas de enfrentamento das causas estruturais da vulnerabilidade econômica. A organização do orçamento não compensa, sozinha, a insuficiência persistente de renda, a perda de emprego ou a ausência de acesso a serviços essenciais.
Também é necessário avaliar os resultados das iniciativas educativas. Não basta contabilizar pessoas atendidas ou conteúdos disponibilizados. Estudos futuros devem investigar se os programas contribuem para melhorar a organização financeira, ampliar a capacidade de lidar com dívidas, reduzir a percepção de insegurança e facilitar o acesso aos serviços de saúde e orientação econômica.
A educação financeira pode, assim, integrar uma estratégia de promoção do bem-estar, desde que não seja apresentada como tratamento clínico nem como solução isolada para problemas sociais e econômicos complexos.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O que a pesquisa revela sobre dificuldades financeiras e saúde mental
A pesquisa O Impacto das Dificuldades Financeiras na Saúde Mental, realizada pelo Instituto Axxus por iniciativa da ABEFIN, oferece evidências descritivas relevantes sobre a maneira como mil pessoas com diagnóstico prévio de transtornos de saúde mental percebem a relação entre suas condições financeiras e o adoecimento psicológico.
Entre os principais resultados, 34,6% dos participantes apontaram as dificuldades financeiras como principal gatilho do quadro clínico. Além disso, 59,5% classificaram a contribuição dos problemas financeiros como exclusiva ou predominante. As preocupações com contas básicas foram mencionadas por 69,4%, enquanto 61,2% relataram dificuldades para quitar dívidas.
Os impactos percebidos ultrapassam a dimensão econômica. Lazer, humor, relações familiares e sono apareceram entre as áreas mais afetadas, demonstrando a amplitude das preocupações financeiras no cotidiano dos entrevistados. O pessimismo em relação ao futuro financeiro e a baixa proporção de participantes que conseguiram receber orientação especializada também merecem atenção.
Esses resultados não permitem afirmar que as dificuldades financeiras sejam a causa dos transtornos diagnosticados, nem que os percentuais representem a população brasileira. A amostra foi formada por pessoas previamente diagnosticadas, e os resultados dependem das percepções declaradas pelos participantes. As diferenças regionais e sociodemográficas também precisam ser interpretadas com cautela, diante da ausência de informações sobre precisão estatística e representatividade dos estratos.
Ainda assim, os achados reforçam a importância de considerar a situação financeira como uma dimensão relevante na investigação do bem-estar psicológico. O sofrimento relacionado a dívidas, renda insuficiente e dificuldade de pagar despesas essenciais não deve ser tratado apenas como uma questão de organização individual, mas como parte de um contexto que envolve condições de trabalho, proteção social, acesso a serviços e oportunidades econômicas.
A educação financeira pode contribuir para ampliar a compreensão sobre o dinheiro, organizar decisões e identificar alternativas para lidar com compromissos financeiros. Seu papel, entretanto, não deve ser confundido com o de um tratamento de saúde mental, nem utilizado para transferir exclusivamente ao indivíduo a responsabilidade por dificuldades estruturais.
Diante dos resultados, destacam-se três frentes de ação: ampliar o acesso à educação e à orientação financeira; promover a articulação entre serviços de saúde mental e apoio à organização econômica; e fortalecer políticas públicas que enfrentem a vulnerabilidade financeira, a insuficiência de renda e as barreiras de acesso a serviços essenciais.
Entre as limitações do estudo, destacam-se a ausência de documentação completa do desenho amostral e dos instrumentos de pesquisa, a falta de microdados e de testes estatísticos e a impossibilidade de estabelecer relações causais. Pesquisas futuras poderão avançar com amostras probabilísticas, acompanhamento longitudinal e instrumentos padronizados, investigando como renda, endividamento, emprego, acesso à orientação financeira e tratamento psicológico se relacionam ao longo do tempo.
A principal reflexão é que saúde mental e vida financeira não devem ser tratadas como dimensões isoladas. Compreender as dificuldades econômicas que acompanham o sofrimento psicológico pode contribuir para respostas mais completas, humanas e efetivas, desde que a educação financeira seja integrada a outras formas de cuidado e proteção.
DECLARAÇÃO DE CONFLITO DE INTERESSES
O autor preside a Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN), entidade que tomou a iniciativa da pesquisa utilizada como fonte empírica principal deste artigo. Essa vinculação institucional é declarada para assegurar transparência quanto à origem dos dados. A análise limita-se aos resultados disponibilizados, não generaliza os percentuais para a população brasileira e não estabelece inferências causais. A discussão é contextualizada por literatura científica independente sobre estresse financeiro e saúde mental.
REFERÊNCIAS
ABEFIN; INSTITUTO AXXUS. O impacto das dificuldades financeiras na saúde mental. São Paulo: ABEFIN; Instituto Axxus, abr. 2026. Relatório de pesquisa. Responsável técnico: Rodnei Domingues.
GUAN, Naijie; GUARIGLIA, Alessandra; MOORE, Patrick; XU, Fangzhou; AL-JANABI, Hareth. Financial stress and depression in adults: a systematic review. PLOS ONE, v. 17, n. 2, e0264041, 2022. DOI: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0264041. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8863240/. Acesso em: 30 out. 2026.