A relação entre saúde financeira e saúde mental aparece com destaque entre os participantes de uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN) em parceria com o Instituto Axxus. Na região Sul, 37% dos entrevistados apontaram as dificuldades financeiras como principal gatilho entre os fatores relacionados ao desenvolvimento de seus transtornos mentais.
O levantamento ouviu 1.000 brasileiros que já haviam recebido diagnóstico profissional de ansiedade, depressão, estresse crônico ou síndrome de Burnout. As entrevistas foram realizadas presencialmente por psicólogos especializados em pesquisas qualitativas e no atendimento de pessoas com transtornos mentais.
A região Sul correspondeu a 14,6% da amostra nacional e apresentou 37% de associação entre dificuldades financeiras e o desenvolvimento dos transtornos relatados, percentual próximo ao registrado no Centro-Oeste, de 37,5%.
O resultado chama atenção para uma dimensão que nem sempre aparece nas discussões sobre saúde mental: a preocupação constante com dinheiro, o endividamento e a dificuldade de equilibrar renda e despesas também podem fazer parte do conjunto de fatores que afetam o bem-estar emocional.
O que a pesquisa mostra sobre saúde mental na região Sul?
Entre os participantes da região Sul, os diagnósticos relatados foram distribuídos da seguinte maneira:
- 43,2% apresentavam ansiedade;
- 31,5% conviviam com depressão;
- 30,8% relataram estresse crônico;
- 25,3% tinham diagnóstico de síndrome de Burnout;
- 37% apontaram dificuldades financeiras como principal gatilho entre os fatores considerados.
Esses números precisam ser interpretados dentro do contexto da pesquisa. Os participantes já tinham diagnóstico profissional de algum dos transtornos analisados. Portanto, os dados mostram a percepção deles sobre os fatores relacionados ao próprio adoecimento e não permitem afirmar que problemas financeiros sejam, isoladamente, a causa desses transtornos.
Ainda assim, a frequência com que as questões financeiras aparecem merece atenção.
Como o dinheiro aparece relacionado ao sofrimento emocional?
Considerando a amostra nacional, as dificuldades financeiras foram apontadas como um dos fatores de maior relevância pelos participantes.
Quando questionados sobre o grau de influência das finanças em seu quadro de saúde mental:
- 32,4% disseram que os problemas financeiros foram a principal causa entre diversos fatores;
- 27,1% apontaram as finanças como causa raiz;
- 22,4% disseram que estavam entre as principais causas;
- 7,9% afirmaram que as questões financeiras não tiveram influência.
Esses resultados mostram que uma parcela expressiva dos participantes percebe uma relação importante entre sua situação financeira e o próprio sofrimento emocional.
A interpretação, porém, precisa considerar que ansiedade, depressão, Burnout e estresse crônico são condições complexas, que podem envolver diferentes fatores pessoais, profissionais, sociais e econômicos.
Por que as dificuldades financeiras podem aumentar a pressão sobre as famílias?
Quando o dinheiro não é suficiente para cobrir as despesas, o problema deixa de ser apenas financeiro.
Contas atrasadas, dívidas, renda insuficiente e incerteza sobre o futuro podem ocupar espaço constante na rotina. A preocupação pode aparecer durante o trabalho, nas relações familiares, nos momentos de descanso e até na hora de dormir.
Os próprios dados da pesquisa ajudam a dimensionar essa realidade. Entre os participantes:
- 69,4% tinham dificuldades para pagar contas básicas;
- 61,2% conviviam com dívidas;
- 53,6% afirmavam que a renda não era suficiente para atender às necessidades da família;
- 31,1% apontavam o desemprego entre os principais desafios financeiros.
Quando existe dificuldade para pagar despesas essenciais, o planejamento de médio e longo prazo também pode ser prejudicado.
A pessoa passa a concentrar energia na resolução de problemas imediatos, enquanto sonhos, reservas financeiras e outros objetivos ficam em segundo plano.
Quais áreas da vida podem ser afetadas pelas dificuldades financeiras?
A pesquisa mostra que a preocupação com dinheiro não fica restrita ao orçamento.
Entre os participantes, foram relatados impactos em diferentes áreas:
- 64,9% tiveram prejuízos no lazer;
- 61,9% perceberam piora no humor;
- 60,1% registraram problemas nas relações familiares;
- 56,1% relataram alterações na qualidade do sono;
- 42,8% perceberam queda no desempenho profissional;
- 39,8% identificaram impactos negativos nas amizades e nos relacionamentos sociais.
Esses resultados ajudam a compreender por que a saúde financeira pode ser considerada uma dimensão relevante do bem-estar.
Uma dívida, por exemplo, não representa apenas o valor que precisa ser pago. Dependendo da situação, ela pode limitar escolhas, alterar a rotina familiar e gerar preocupação recorrente.
O pessimismo financeiro também aparece na pesquisa
Outro dado importante está relacionado à percepção sobre o futuro.
Enquanto 35,9% dos participantes acreditavam que sua saúde mental poderia melhorar nos próximos anos, somente 20% demonstravam otimismo em relação à própria situação financeira.
Por outro lado, 67,2% apresentavam uma visão pessimista ou muito pessimista sobre o futuro das finanças.
A dificuldade de visualizar uma melhora pode tornar o planejamento ainda mais difícil. Quando o futuro parece incerto, é comum que as decisões fiquem concentradas no curto prazo.
É justamente nesse ponto que o planejamento financeiro pode ajudar a transformar uma situação aparentemente desorganizada em um conjunto de problemas que podem ser identificados e enfrentados gradualmente.
Educação financeira pode ajudar a lidar com a insegurança financeira?
A pesquisa mostra que existe espaço para ampliar o acesso à orientação financeira. 48,5% dos participantes nunca haviam procurado um educador financeiro, enquanto apenas 13,1% disseram ter recebido algum tipo de apoio especializado.
Isso não significa que educação financeira seja tratamento para transtornos mentais. Ansiedade, depressão, Burnout e estresse crônico precisam de avaliação e acompanhamento de profissionais de saúde quando necessário.
A contribuição da educação financeira está em outra frente: ajudar a pessoa a compreender sua realidade econômica, organizar prioridades e tomar decisões mais conscientes.
Quando existe clareza sobre quanto entra, quanto sai e quais compromissos precisam ser enfrentados, a situação financeira pode deixar de parecer um problema impossível de dimensionar.
Como começar a organizar a vida financeira?
Para quem está enfrentando dificuldades, o primeiro passo é Diagnosticar a situação. Isso significa colocar no papel a renda, as despesas, as dívidas, as parcelas e os compromissos existentes.
Depois, é importante Sonhar, estabelecendo objetivos que façam sentido para a pessoa ou para a família. Mesmo quando há dívidas, ter objetivos ajuda a dar direção ao processo.
O terceiro passo é Orçar. O orçamento permite distribuir os recursos de acordo com prioridades e identificar onde existem gastos que podem ser ajustados.
Por fim, vem o Poupar, etapa necessária para construir reservas e realizar objetivos futuros.
Essa é a lógica da metodologia DSOP: Diagnosticar, Sonhar, Orçar e Poupar.
Para uma família endividada, entretanto, o processo pode começar de forma diferente. Antes de pensar em investimentos ou grandes sonhos, pode ser necessário recuperar o equilíbrio do orçamento, renegociar dívidas e interromper o ciclo de novos empréstimos.
Saúde financeira e saúde mental devem ser vistas de forma integrada?
Os dados da pesquisa mostram que existe uma relação relevante entre as duas dimensões, especialmente entre pessoas que já apresentam diagnósticos de saúde mental.
No Sul, 37% dos participantes apontaram as dificuldades financeiras como principal gatilho entre os fatores relacionados ao desenvolvimento de seus transtornos. Ao mesmo tempo, uma parcela expressiva relatou dívidas, dificuldade para pagar contas básicas e renda insuficiente.
Isso não significa que organizar as finanças resolva, por si só, problemas de saúde mental. A realidade é mais complexa.
Mas também não significa que a dimensão financeira deva ser ignorada.
Quando a preocupação com dinheiro faz parte da rotina, compreender a própria situação, estabelecer prioridades e construir um plano possível pode ajudar a recuperar uma sensação de organização e controle.
A educação financeira, nesse contexto, pode atuar principalmente na prevenção e na tomada de decisões. Cuidar da saúde financeira não substitui o cuidado profissional com a saúde mental, mas pode ajudar a reduzir uma fonte importante de preocupação e contribuir para uma relação mais consciente com o dinheiro.
A pesquisa da ABEFIN e do Instituto Axxus reforça, portanto, a importância de ampliar essa conversa: falar de saúde financeira também é falar de planejamento, escolhas, segurança e qualidade de vida.