Por Reinaldo Domingos, PhD, o Dr. Dívidas
Como estão os nossos colaboradores em relação ao crédito?
Essa é uma pergunta que precisa começar a ocupar cada vez mais espaço dentro das empresas.
O acesso ao empréstimo consignado avançou entre diferentes grupos da população brasileira. Primeiro, esse tipo de crédito se consolidou entre servidores públicos e aposentados. Agora, com o Crédito do Trabalhador, o consignado também se tornou mais acessível aos trabalhadores com carteira assinada.
Ao mesmo tempo, outras pressões financeiras se somam a esse cenário, entre elas o crescimento das apostas e a possibilidade de novas despesas serem descontadas diretamente da remuneração.
O problema não está na existência do crédito.
O crédito pode ser uma importante ferramenta financeira quando utilizado com planejamento, propósito e conhecimento.
O risco aparece quando o acesso ao dinheiro cresce mais rapidamente do que a capacidade das pessoas de compreender seus impactos sobre o orçamento.
É nesse momento que começa a se formar uma verdadeira areia movediça financeira.
O crédito ficou mais acessível. A educação financeira acompanhou esse movimento?
Com o avanço do Crédito do Trabalhador, milhões de trabalhadores passaram a ter acesso ao empréstimo consignado com desconto diretamente na folha de pagamento.
A margem consignável pode chegar a 35% da remuneração disponível, conforme as regras vigentes do programa.
Para quem utiliza esse recurso de maneira planejada, ele pode representar uma alternativa para substituir dívidas mais caras ou organizar determinadas necessidades financeiras.
Mas existe outra realidade.
Quando empréstimos, descontos em folha, gastos recorrentes e ausência de planejamento se acumulam, uma parte significativa da renda do trabalhador pode deixar de estar disponível antes mesmo de o salário chegar efetivamente às suas mãos.
E esse impacto não permanece apenas dentro da casa do colaborador.
Ele também começa a chegar às empresas.
Quando o endividamento do trabalhador entra pela porta da empresa
Já existem organizações percebendo os efeitos de trabalhadores com uma parcela cada vez maior da renda comprometida.
São colaboradores que precisam administrar empréstimos, dívidas anteriores, gastos familiares e, em alguns casos, perdas relacionadas a jogos de apostas.
Esse cenário pode gerar ansiedade financeira, dificuldade de concentração, busca constante por novas formas de crédito e redução da capacidade de lidar com imprevistos.
É nesse ponto que o endividamento deixa de ser apenas uma questão individual.
Ele passa a dialogar também com produtividade, bem-estar, clima organizacional e gestão de pessoas.
O salário pode estar comprometido antes mesmo de chegar à conta
Existe ainda um novo elemento entrando nessa discussão.
Em agosto de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou uma proposta que permite a consignação em folha do pagamento de aluguéis residenciais e encargos locatícios.
Pelo texto aprovado, esse desconto deve respeitar o limite de 30% da remuneração disponível. A proposta ainda depende da análise do Senado.
Caso esse modelo avance, teremos uma nova modalidade de comprometimento direto da renda.
Façamos uma simulação simples.
Um trabalhador que tenha até 35% da remuneração comprometida com empréstimo consignado e outros 30% destinados ao aluguel consignado poderia, em uma situação hipotética, chegar a 65% da remuneração disponível comprometida com essas duas obrigações.
Não significa que todos os trabalhadores chegarão a esse percentual.
A conta serve para demonstrar a dimensão do desafio.
Antes mesmo de considerar alimentação, transporte, saúde, educação, energia, lazer e demais compromissos familiares, uma parcela relevante da renda já poderia estar previamente direcionada.
O problema acompanha o trabalhador
Existe ainda uma percepção equivocada de que uma dívida vinculada à folha desaparece quando o trabalhador deixa a empresa.
Não é assim.
A dívida pertence ao trabalhador e continua existindo.
No Crédito do Trabalhador, por exemplo, caso haja saldo após um desligamento, existem mecanismos para continuidade do pagamento, negociação com a instituição financeira ou cobrança em um novo vínculo de emprego, conforme as regras aplicáveis.
Portanto, trocar de emprego não significa necessariamente resolver o problema financeiro.
Algumas pessoas podem procurar uma nova colocação. Outras podem migrar para formas alternativas de geração de renda, buscar atividades autônomas ou até abrir um MEI.
Mas, sem uma mudança no comportamento financeiro, existe o risco de apenas transferir o problema para outro contexto.
Apostas adicionam uma nova camada de pressão
Outro fenômeno precisa entrar nessa discussão: os jogos de apostas.
Quando crédito fácil, apostas e ausência de planejamento financeiro se encontram, existe o risco de formação de um ciclo extremamente difícil de interromper.
A pessoa pode utilizar recursos que já estavam comprometidos, recorrer ao crédito para recompor perdas ou buscar novos empréstimos para sustentar despesas básicas.
Nesse cenário, renegociar a dívida é importante, mas pode não ser suficiente.
É preciso compreender aquilo que levou ao endividamento.
Renegociar dívida sem mudar comportamento pode apenas adiar o problema
Esse talvez seja um dos pontos centrais dessa discussão.
O endividamento não deve ser analisado somente pelo valor devido.
É necessário compreender o comportamento que existe por trás da dívida.
Se uma pessoa renegocia suas obrigações financeiras, mas continua sem planejamento, sem reservas, sem objetivos definidos e recorrendo ao crédito sempre que o orçamento aperta, existe uma grande chance de o problema reaparecer.
Por isso, educação financeira não pode entrar apenas depois da crise.
Ela precisa atuar também na prevenção.
Qual é o papel das empresas nesse cenário?
As organizações não devem controlar as decisões financeiras de seus colaboradores.
Mas podem criar condições para que essas decisões sejam tomadas com mais consciência.
Espero que os empresários já estejam pensando ou investindo em educação do comportamento financeiro para suas equipes.
Não apenas por meio de uma palestra isolada.
É necessário pensar em programas estruturados, contínuos e capazes de acompanhar o trabalhador ao longo do tempo.
Sempre que possível, esses programas também devem alcançar as famílias.
Afinal, as decisões financeiras dificilmente acontecem de forma isolada.
Educação financeira corporativa precisa ser contínua
Uma estratégia consistente deve ajudar o trabalhador a compreender questões como:
- quanto da renda já está comprometida;
- quanto realmente custa um empréstimo;
- quais juros estão sendo pagos;
- quais são os impactos de longo prazo de uma decisão financeira;
- como organizar despesas familiares;
- como construir reservas;
- como transformar sonhos em objetivos financeiros;
- quando o crédito pode ser útil;
- quando ele representa apenas a postergação de um problema.
A questão não é impedir que alguém tome crédito.
É permitir que essa pessoa entenda aquilo que está contratando antes de assumir uma nova obrigação.
Educação financeira é uma responsabilidade compartilhada
Essa transformação também não pode ficar apenas nas mãos das empresas.
Escolas, instituições financeiras, poder público, organizações e famílias precisam fazer parte dessa discussão.
Durante muito tempo, nossa sociedade se concentrou em resolver as consequências do endividamento.
Renegociamos.
Parcelamos.
Refinanciamos.
Criamos novas modalidades de crédito.
Mas continuamos investindo pouco na compreensão do comportamento financeiro que antecede essas decisões.
Precisamos inverter essa lógica.
A prevenção precisa acontecer antes da dívida.
Onde entra o Dr. Dívidas nessa história?
É justamente nesse cenário que entra o trabalho do Dr. Dívidas, baseado na educação e na Metodologia DSOP.
Não existem soluções mágicas para um problema construído ao longo dos anos.
Também não existe uma fórmula instantânea capaz de reorganizar a vida financeira de uma pessoa.
Existe, porém, conhecimento.
Existe método.
E existe a possibilidade de transformar comportamentos.
A proposta é ajudar pessoas e famílias a compreenderem sua realidade financeira, identificar as causas dos problemas, organizar seus recursos e construir uma relação mais consciente com o dinheiro.
A hora de agir é agora
O crédito já chegou a diferentes grupos da população brasileira.
O consignado avançou entre os trabalhadores.
Novas modalidades de desconto em folha estão sendo discutidas.
As apostas criaram uma pressão adicional sobre muitos orçamentos familiares.
Agora, o grande desafio é impedir que a facilidade de acesso ao dinheiro se transforme em uma areia movediça para trabalhadores, famílias e empresas.
A resposta não está em demonizar o crédito.
Está em ampliar o conhecimento.
Quanto mais fácil se torna contratar uma dívida, mais urgente se torna ensinar as pessoas a compreender aquilo que estão contratando.
Reinaldo Domingos, PhD, é educador e terapeuta financeiro, escritor e presidente da DSOP Educação Financeira. Conhecido como Dr. Dívidas, atua na disseminação da educação do comportamento financeiro para famílias, empresas e instituições.