Por Reinaldo Domingos, o Dr. Dívidas, presidente da ABEFIN
Mais de seis em cada dez consumidores adultos do Amazonas estavam inadimplentes em agosto de 2026, segundo dados da Serasa. O índice de 61,19% de inadimplência no Amazonas supera a média nacional de 51,06% e coloca em evidência uma questão que vai além do número de pessoas com o nome negativado: qual é, de fato, a dimensão do endividamento dos consumidores que têm renda, trabalham, consomem e utilizam crédito?
A resposta exige cuidado com as bases utilizadas nas estatísticas. O percentual divulgado pela Serasa é calculado a partir de sua base de consumidores adultos e não corresponde à proporção de inadimplentes sobre toda a população do Estado.
Por isso, não é adequado simplesmente comparar esse percentual com a população total ou com a população economicamente ativa do Amazonas. São universos diferentes, formados por pessoas com diferentes relações com renda, trabalho, consumo e crédito.
O que significa uma inadimplência de 61,19% no Amazonas?
O índice de 61,19% de inadimplência entre os consumidores adultos considerados pela Serasa representa um sinal relevante sobre o nível de comprometimento financeiro da população.
Isso não significa, entretanto, que 61,19% de toda a população adulta do Amazonas esteja inadimplente. A metodologia considera o universo de consumidores utilizado pela Serasa, e essa diferença é fundamental para interpretar corretamente o dado.
Quando se tenta dimensionar o problema a partir da população economicamente ativa, por exemplo, é necessário considerar que esse grupo não é formado por todos os adultos. Aposentados, desempregados, pessoas fora do mercado de trabalho e beneficiários de programas sociais possuem relações diferentes com renda e consumo.
Portanto, o dado da Serasa deve ser analisado dentro da metodologia que o originou.
É possível dizer que a inadimplência real no Amazonas é maior?
Não é metodologicamente seguro afirmar que a inadimplência real no Amazonas é maior que 61,19% apenas fazendo cálculos com outros grupos populacionais.
O ponto não é buscar uma porcentagem maior, mas compreender o que cada indicador mede. A população total do Amazonas, a população adulta, a população economicamente ativa e a base de consumidores da Serasa são universos diferentes.
Somar, dividir ou cruzar esses números sem uma metodologia compatível pode produzir uma taxa aparentemente precisa, mas estatisticamente incorreta.
O problema da inadimplência vai além do nome negativado
O índice de inadimplência mostra uma parte importante do problema, mas não explica sozinho a situação financeira das famílias.
É necessário observar questões como:
- quanto da renda está comprometido com dívidas;
- quais tipos de crédito estão sendo utilizados;
- quantas pessoas possuem múltiplas dívidas;
- quais são as principais causas do endividamento;
- quanto da renda é destinado ao pagamento de parcelas;
- se a pessoa consegue formar uma reserva financeira;
- e se a renegociação realmente consegue interromper o ciclo de endividamento.
Por isso, a discussão sobre endividamento no Amazonas precisa ir além da negativação.
Uma pessoa pode não estar negativada e ainda assim ter grande parte da renda comprometida com cartão de crédito, financiamento, empréstimos ou outras obrigações.
O problema não termina na renegociação da dívida
O cenário do Amazonas faz parte de uma realidade nacional. Em agosto de 2026, o Brasil chegou a 83,9 milhões de pessoas negativadas, o maior número da série histórica da Serasa.
Entre maio e agosto, foram registrados 19,7 milhões de acordos de renegociação, alta de 36% em relação ao mesmo período de 2025.
Os números mostram que existe uma parcela expressiva da população tentando renegociar dívidas e limpar o nome. Mas renegociar uma dívida não significa necessariamente resolver a origem do problema financeiro.
Uma pessoa pode conseguir desconto, reorganizar temporariamente os pagamentos e, meses depois, voltar a utilizar o cartão de crédito sem planejamento, contratar novos empréstimos ou assumir compromissos acima de sua capacidade de pagamento.
É por isso que considero necessário olhar para a inadimplência também como uma questão de comportamento financeiro.
Por que as pessoas entram em dívidas?
A pergunta não deveria ser apenas quanto uma pessoa deve, mas também como ela chegou à dívida.
Foi uma redução de renda? Uma emergência? O uso recorrente do cartão de crédito? Um empréstimo contratado para pagar outra dívida? Consumo acima da capacidade financeira? Falta de planejamento?
Na maioria das situações, o endividamento pode ser resultado da combinação de diferentes fatores.
É justamente essa análise que permite diferenciar uma dificuldade financeira pontual de um ciclo de endividamento.
A dívida pode ser uma dádiva?
É nesse ponto que entra o conceito do Dr. Dívidas: “Por que Dívida É Uma Dádiva”.
Quando uma pessoa está endividada, a primeira reação costuma ser perguntar quanto deve e como conseguir desconto. Essas perguntas são importantes, mas não são suficientes.
É preciso perguntar por que aquela dívida surgiu e quais comportamentos financeiros precisam ser modificados.
A dívida pode ser uma dádiva quando obriga a pessoa a interromper o automático, olhar para suas escolhas e identificar o que precisa mudar. Ela deixa de ser apenas um problema a ser eliminado e passa a funcionar como um sinal de que alguma decisão financeira precisa ser revista.
Sem essa mudança de comportamento, a renegociação da dívida pode tratar apenas o sintoma.
Como o endividamento pode afetar a vida emocional?
A dimensão do problema financeiro também aparece quando observamos seus reflexos na vida pessoal.
Uma pesquisa realizada pela ABEFIN em parceria com o Instituto Axxus, em abril de 2026, ouviu mil pessoas que já possuíam diagnóstico formal de ansiedade, depressão, estresse crônico ou Burnout.
Entre os entrevistados, 34,6% apontaram dificuldades financeiras como principal gatilho ou causa-raiz relacionada ao diagnóstico.
Outros 32,4% disseram que os problemas financeiros tiveram contribuição predominante, enquanto 27,1% os apontaram como causa exclusiva ou raiz.
Esses resultados não permitem afirmar que inadimplência causa doenças mentais. O que os dados mostram é a importância atribuída pelos próprios entrevistados às dificuldades financeiras em relação ao sofrimento emocional.
O que os dados mostram sobre a Região Norte?
No recorte regional, a ansiedade foi relatada por 53,4% dos participantes da Região Norte, enquanto as dificuldades financeiras apareceram como gatilho ou causa-raiz para 34,1% dos entrevistados da região.
Esses números são referentes à Região Norte e não devem ser interpretados como uma medição específica da população do Amazonas.
Na pesquisa nacional, os efeitos das dificuldades financeiras também apareceram em áreas como lazer, humor, relações familiares, sono e desempenho profissional.
Educação financeira pode ajudar a prevenir a inadimplência?
É nesse ponto que a educação financeira pode desempenhar um papel importante.
Educação financeira não significa apenas aprender a fazer contas, comparar investimentos ou montar uma planilha. É também uma questão de comportamento financeiro.
Significa aprender a diagnosticar a própria situação, reconhecer sonhos e prioridades, fazer um orçamento de acordo com a realidade e poupar para construir uma reserva estratégica.
É essa a proposta da metodologia DSOP: Diagnosticar, Sonhar, Orçar e Poupar.
Também envolve uma palavra que muitas vezes é esquecida: renúncia.
Não é possível realizar todos os desejos ao mesmo tempo. É preciso escolher, estabelecer prioridades e compreender que cada decisão financeira produz uma consequência.
Como evitar que a dívida volte depois da renegociação?
A renegociação pode ser um passo importante para recuperar o equilíbrio financeiro, mas precisa vir acompanhada de uma mudança de comportamento.
Depois de reorganizar as dívidas, é importante entender:
- qual foi a causa do endividamento;
- quanto da renda pode ser comprometido com novas parcelas;
- quais despesas podem ser reduzidas ou reorganizadas;
- como evitar o uso excessivo do crédito;
- como criar uma reserva financeira;
- quais prioridades devem orientar o orçamento.
O objetivo não deve ser apenas sair da inadimplência, mas construir condições para não voltar ao mesmo problema.
Como costumo dizer, dinheiro não aceita desaforo. Quando não existe planejamento, ele pode desaparecer rapidamente. Quando existe consciência, pode se transformar em instrumento para realizar sonhos e construir uma vida financeira mais equilibrada.
O que o dado da Serasa revela sobre a inadimplência no Amazonas?
O índice de 61,19% de inadimplência no Amazonas é mais do que uma estatística sobre consumidores negativados. Ele abre uma discussão sobre a relação da população com renda, crédito, consumo e planejamento financeiro.
Ao mesmo tempo, é fundamental interpretar o número corretamente. A população total do Amazonas, a população adulta, a população economicamente ativa e o universo de consumidores considerado pela Serasa são grupos distintos.
Por isso, não se deve transformar esses diferentes universos em uma única porcentagem para tentar estimar uma suposta “inadimplência real” sem uma metodologia estatística adequada.
O mais importante é compreender o que cada dado representa e, a partir daí, olhar para as causas da inadimplência.
Renegociar uma dívida é um passo importante para reorganizar a vida financeira. Mas o processo não deveria terminar no acordo. É preciso compreender o que levou ao endividamento e desenvolver novos hábitos para evitar que o ciclo se repita.
A dívida, nesse sentido, pode deixar de ser apenas um problema financeiro e se transformar em uma oportunidade de aprendizado.