O Dia das Crianças costuma aumentar o movimento no comércio, mas também pode pressionar o orçamento das famílias. Em 2026, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) projeta R$ 9,27 bilhões em vendas relacionadas à data, uma alta de 1,8% em relação ao ano anterior. Já uma pesquisa do SPC Brasil e da CNDL aponta que 74% dos consumidores pretendem comprar presentes, com gasto médio de R$ 308.
O problema é que a vontade de presentear pode levar a decisões que não cabem na realidade financeira da família. Na mesma pesquisa, 22% dos consumidores afirmaram que pretendem gastar além do que podem, enquanto 35% dos compradores estão inadimplentes.
Por isso, antes de escolher o brinquedo, o celular, o videogame ou qualquer outro presente, vale fazer uma pergunta mais importante: quanto é possível gastar sem comprometer as contas e os planos dos próximos meses?
Para Reinaldo Domingos, educador financeiro e presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN), o planejamento é uma forma de evitar que uma demonstração de carinho se transforme em uma dívida.
“Presentear uma criança é um gesto de carinho, mas o amor não precisa ser medido pelo preço do presente. Quando a família compra por impulso, parcela sem planejamento ou assume uma dívida que não consegue carregar, aquele momento de alegria pode se transformar em meses de preocupação financeira.”
Como gastar menos no Dia das Crianças?
Gastar menos não significa necessariamente comprar um presente mais barato. Significa tomar uma decisão compatível com o orçamento, comparar alternativas e evitar despesas que não estavam previstas.
O planejamento também ajuda a reduzir o impacto do apelo emocional típico da data. Promoções, publicidade, pedidos das crianças e a comparação com o que outros familiares estão comprando podem estimular decisões por impulso.
Veja 20 cuidados que podem ajudar.
1. Defina quanto você pode gastar antes de procurar o presente
O orçamento deve vir antes da compra. Estabeleça um valor total para o Dia das Crianças considerando todas as pessoas que serão presenteadas.
Se o valor disponível já estiver comprometido com contas essenciais, dívidas ou outras prioridades, talvez seja necessário reduzir o orçamento da data.
2. Faça uma lista de quem receberá presente
Anote todas as crianças que serão presenteadas antes de começar as compras.
Essa simples organização ajuda a evitar que novos nomes sejam incluídos no carrinho por impulso e permite distribuir melhor o dinheiro disponível.
3. Estabeleça um limite para cada presente
Depois de definir o orçamento total, determine quanto poderá ser destinado a cada presente.
Assim, fica mais fácil evitar que uma única compra consuma uma parcela excessiva do dinheiro reservado para a data.
4. Não transforme o presente em uma dívida
O parcelamento pode dar a impressão de que uma compra é barata porque reduz o valor desembolsado naquele momento.
Mas cada parcela representa um compromisso futuro. Antes de parcelar, verifique se a prestação continuará cabendo no orçamento nos meses seguintes.
5. Compare o preço final
Não olhe apenas para o percentual de desconto anunciado.
Frete, juros, acessórios, taxas e outros custos podem fazer com que uma suposta promoção deixe de ser vantajosa.
O que importa é quanto será efetivamente pago.
6. Pesquise o histórico de preços
Uma etiqueta indicando “50% de desconto” não significa necessariamente que o produto esteja barato.
Compare os preços praticados por diferentes lojas e, quando possível, observe quanto o produto custava anteriormente.
7. Diferencie o desejo da criança da necessidade de comprar
Converse com a criança sobre o que ela realmente gostaria de ganhar.
Isso ajuda a evitar a compra de produtos caros que acabam sendo pouco utilizados depois.
A conversa também pode ser uma oportunidade para explicar que existem limites financeiros e que fazer escolhas faz parte da vida.
8. Considere o custo total do presente
O preço da embalagem pode não representar o custo real do produto.
Um videogame, por exemplo, pode exigir jogos, controles, acessórios, assinaturas e outros gastos. Ao calcular o orçamento, considere também essas despesas futuras.
9. Avalie opções mais simples
Nem sempre o presente mais caro será o mais significativo.
Livros, jogos de tabuleiro, brinquedos educativos, atividades esportivas, passeios e experiências em família podem ser alternativas interessantes e compatíveis com diferentes orçamentos.
10. Não compre para compensar uma ausência
Algumas compras são motivadas mais pela culpa ou pela tentativa de compensar uma ausência do que pelo planejamento.
O presente pode ser importante, mas não precisa carregar a responsabilidade de substituir tempo, atenção e convivência.
11. Desconfie de ofertas extraordinárias
Descontos muito acima do padrão do mercado, contagens regressivas, mensagens de urgência e promessas de prêmios exigem atenção.
Quanto maior a pressão para comprar imediatamente, maior deve ser a disposição para parar, pesquisar e verificar a oferta.
12. Entre diretamente no site da loja
Evite acessar uma promoção por meio de links recebidos por WhatsApp, SMS, e-mail ou redes sociais.
Se tiver interesse no produto, procure diretamente o site oficial da empresa e confira se a oferta realmente existe.
13. Confira os dados antes de pagar por Pix
Antes de confirmar um Pix, confira cuidadosamente o nome do destinatário, CPF ou CNPJ e a instituição financeira apresentada pelo aplicativo.
Se a informação não corresponder à empresa ou pessoa para quem você pretende pagar, interrompa a operação.
14. Não forneça dados pessoais sem necessidade
CPF, endereço, telefone, informações bancárias e dados de cartão não devem ser compartilhados indiscriminadamente.
Antes de preencher um formulário de promoção ou cadastro, verifique quem está solicitando as informações e qual é a finalidade.
15. Desconfie de pesquisas que prometem dinheiro ou presentes
Golpes podem utilizar o nome e a identidade visual de empresas conhecidas para oferecer supostos prêmios, descontos ou pagamentos.
Antes de participar, procure a promoção diretamente nos canais oficiais da marca.
16. Verifique a reputação da loja
Antes de comprar em uma empresa desconhecida, pesquise sua reputação, dados cadastrais, canais de atendimento e histórico de reclamações.
Uma oferta barata não compensa o risco de comprar de um vendedor que não oferece informações suficientes sobre sua operação.
17. Guarde os comprovantes da compra
Nota fiscal, pedido, comprovante de pagamento, anúncio e conversas com o fornecedor devem ser preservados.
Esses documentos podem ser importantes caso exista algum problema com o produto, a entrega ou o pagamento.
18. Conheça o direito de arrependimento
Nas compras realizadas fora do estabelecimento comercial, como pela internet, telefone ou catálogo, o consumidor pode desistir da contratação no prazo de sete dias a partir da assinatura ou do recebimento do produto ou serviço, conforme as regras do Código de Defesa do Consumidor.
Conhecer esse direito ajuda o consumidor a tomar decisões com mais segurança.
19. Verifique a segurança do brinquedo
Preço e aparência não são os únicos critérios para escolher um brinquedo.
Confira a indicação de faixa etária, as instruções de uso e as informações de segurança. Também é importante verificar se o produto atende às exigências de certificação aplicáveis.
20. Se cair em um golpe, aja rapidamente
Quem identificar uma fraude depois de realizar um Pix deve procurar o banco imediatamente e solicitar o Mecanismo Especial de Devolução (MED), quando aplicável.
O pedido pode ser feito em até 80 dias da transação, mas a rapidez é importante. A devolução não é garantida e depende da análise do caso e da existência de recursos na conta envolvida.
Como evitar golpes nas compras de Dia das Crianças?
Os cuidados com segurança são especialmente importantes durante períodos de grande movimentação no comércio.
Dados da TransUnion apontam que brasileiros que relataram perdas com fraudes digitais tiveram prejuízo médio de R$ 10.699, valor 60% superior ao registrado no levantamento anterior. Já a Serasa Experian identificou 110.867 tentativas de fraude no comércio eletrônico em maio de 2026.
O consumidor deve desconfiar principalmente de ofertas que combinam preço muito abaixo do mercado, urgência, promessa de vantagem extraordinária e solicitação de pagamento imediato.
Outro ponto importante é verificar o endereço do site antes de informar dados ou realizar um pagamento. Uma página pode ter aparência semelhante à de uma empresa conhecida e, ainda assim, ser falsa.
“Os golpes estão cada vez mais sofisticados e, muitas vezes, não parecem golpes. O criminoso cria uma promoção, utiliza a identidade de uma marca conhecida, oferece um desconto extraordinário e cria uma sensação de urgência. O consumidor precisa aprender a desconfiar justamente quando a oferta parece boa demais.”
O cartão de crédito pode ser usado para comprar o presente?
Pode, desde que a compra esteja prevista no orçamento.
O problema não é o cartão de crédito em si, mas utilizá-lo como se fosse uma extensão da renda. O limite disponível não representa dinheiro adicional.
Uma compra parcelada precisa ser analisada considerando o conjunto das outras parcelas que já fazem parte do orçamento.
Antes de finalizar a compra, vale perguntar:
A parcela cabe no orçamento?
Já existem outras compras parceladas?
O pagamento continuará sendo possível nos próximos meses?
A compra compromete dinheiro que já estava destinado a outra prioridade?
Se as respostas indicarem que o orçamento ficará apertado, é melhor rever o valor do presente.
O Dia das Crianças pode ser uma oportunidade de ensinar educação financeira?
Sim. A escolha do presente pode se transformar em uma situação prática para conversar sobre dinheiro com as crianças.
Isso não significa transferir para elas responsabilidades financeiras que cabem aos adultos. A ideia é ensinar, de acordo com a idade, que o dinheiro é limitado, que existem escolhas e que nem todos os desejos precisam ser atendidos imediatamente.
Reinaldo Domingos defende que a educação financeira começa justamente no comportamento.
“É importante envolver a criança nas escolhas, respeitando sua idade. Ela pode aprender que existe um valor disponível, que existem diferentes opções e que, ao escolher uma coisa, eventualmente terá de abrir mão de outra. Isso é educação financeira na prática.”
Uma maneira simples de fazer isso é apresentar algumas opções dentro de um determinado valor e conversar sobre as diferenças entre elas.
A criança pode participar da decisão, entender que o orçamento é limitado e perceber que escolher uma alternativa significa abrir mão de outras.
Como transformar o presente em uma experiência de educação financeira?
O adulto pode aproveitar a ocasião para apresentar conceitos simples, como planejamento, escolha, prioridade e espera.
Por exemplo, se a criança deseja dois produtos, pode ser explicado que o orçamento disponível permite escolher apenas um naquele momento. Em vez de simplesmente dizer “não”, a situação pode ser utilizada para mostrar como as escolhas funcionam.
Também é possível conversar sobre a diferença entre querer e precisar, explicar que uma promoção não significa necessariamente economia e mostrar que esperar pode fazer parte de uma decisão de compra.
Esse tipo de aprendizado tende a ser mais significativo quando acontece no cotidiano, e não apenas por meio de explicações teóricas.
Como comprar o presente de Dia das Crianças sem comprometer o futuro?
O princípio é simples: o presente precisa caber na vida financeira da família.
Antes de pensar no produto, estabeleça o valor disponível. Depois, pesquise preços, compare alternativas e avalie se a forma de pagamento não comprometerá os próximos meses.
O Dia das Crianças também pode ser uma oportunidade para colocar em prática os princípios da educação financeira: diagnosticar a situação financeira, definir prioridades, orçar os gastos e poupar para objetivos futuros.
Como resume Reinaldo Domingos, o problema começa quando o consumo de hoje passa a comprometer a vida financeira de amanhã.
Por isso, um bom presente não é necessariamente aquele que custa mais. É aquele que pode ser comprado sem criar uma dívida que a família não conseguirá pagar e que ainda pode deixar uma experiência positiva para a criança.
Presentear também pode ser uma forma de ensinar que dinheiro envolve escolhas, planejamento e responsabilidade.