A expansão do crédito consignado para trabalhadores da iniciativa privada tem sido apresentada como uma importante ferramenta de inclusão financeira. Com acesso simplificado, contratação digital e taxas supostamente mais baixas do que outras modalidades de empréstimo, o produto passou a ocupar espaço de destaque nas estratégias de bancos, fintechs e plataformas especializadas em crédito.
À primeira vista, o discurso parece fazer sentido. Afinal, oferecer crédito mais barato para uma população historicamente pressionada por juros elevados poderia representar um avanço relevante. O problema é que a discussão tem sido conduzida quase exclusivamente sob a ótica da oferta de crédito, enquanto um aspecto fundamental permanece em segundo plano: a capacidade do trabalhador de compreender, de fato, o impacto financeiro dessa decisão ao longo dos anos.
Uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN), em parceria com o Instituto Axxus de Pesquisas, ligado à Unicamp, mostra a dimensão do problema. O levantamento, realizado com 800 pessoas, revelou que 83% dos trabalhadores que contrataram o chamado Crédito do Trabalhador não sabem quanto estão pagando de juros. Além disso, 69% admitiram não ter analisado o impacto da contratação em suas finanças pessoais e 54% afirmaram não ter recebido qualquer orientação antes de assumir a dívida.
Os números revelam uma realidade preocupante: milhões de brasileiros estão contratando crédito sem compreender seu custo real, seu impacto sobre a renda futura e suas consequências para a estabilidade financeira da família.
É justamente nesse ponto que mora a principal preocupação.
O consignado vem sendo vendido como uma solução simples para problemas complexos. No entanto, aquilo que parece um alívio imediato pode se transformar em um compromisso financeiro de longa duração, capaz de comprometer parte da renda do trabalhador por anos e, em muitos casos, sem que ele tenha plena consciência daquilo que está assinando.
Existe uma percepção generalizada de que o crédito consignado é barato. Essa narrativa foi construída porque as taxas normalmente são inferiores às encontradas em modalidades como cheque especial, rotativo do cartão de crédito ou empréstimos pessoais tradicionais. Porém, comparar o consignado apenas com as linhas mais caras do mercado não significa necessariamente que ele seja barato.
O que raramente é discutido de forma transparente é que muitos trabalhadores observam apenas a parcela mensal e ignoram o valor total da dívida ao longo do contrato. A prestação parece pequena, cabe no orçamento e transmite a sensação de que a operação é vantajosa. Entretanto, quando se avalia o montante pago ao longo dos anos, a realidade pode ser muito diferente daquela percebida no momento da contratação.
Mais preocupante ainda é o fato de que o novo Crédito do Trabalhador já apresenta operações com juros que podem alcançar entre 5% e 9% ao mês. Em qualquer análise financeira séria, trata-se de uma taxa extremamente elevada para uma modalidade que vem sendo apresentada ao público como uma solução acessível e segura. A percepção de juros baixos muitas vezes está associada apenas à comparação com linhas ainda mais caras, mas isso não significa que o custo do crédito seja efetivamente baixo.
A pesquisa da ABEFIN mostra ainda que 36% dos contratantes utilizaram o crédito para quitar outras dívidas, como cartão de crédito e cheque especial. Embora essa estratégia possa gerar um alívio momentâneo, ela não resolve a origem do problema financeiro.
Em muitos casos, o que ocorre é apenas a substituição de uma dívida por outra.
Sem mudança de comportamento, sem reorganização financeira e sem planejamento, o trabalhador troca uma pressão imediata por um compromisso de longo prazo que continuará comprometendo sua renda por meses ou anos.
Outro aspecto pouco debatido é a própria natureza do consignado. Diferentemente de outras modalidades de crédito, nas quais o consumidor ainda possui algum grau de decisão sobre quando e como realizar pagamentos, o consignado transforma o trabalhador em um agente passivo da operação.
O desconto ocorre diretamente na folha de pagamento e, uma vez contratado, o compromisso passa a integrar automaticamente sua vida financeira. A dívida continua existindo independentemente de mudanças no orçamento familiar, aumento do custo de vida ou surgimento de gastos inesperados.
Esse é um dos pontos mais perigosos dessa modalidade.
Enquanto um cartão de crédito ainda permite alguma ação do consumidor diante de dificuldades financeiras, o consignado segue seu curso automaticamente. O trabalhador perde capacidade de reação porque parte de sua renda já está comprometida antes mesmo de chegar à sua conta.
Muitos acreditam, inclusive, que uma eventual troca de emprego encerraria esse compromisso financeiro. Na prática, a dívida continua acompanhando o trabalhador até sua quitação integral. Não se trata apenas de um empréstimo. Trata-se de um compromisso financeiro que pode acompanhar anos da vida produtiva de uma pessoa.
Outro dado que merece atenção é a utilização do FGTS como garantia das operações. A pesquisa identificou que quase 90% dos entrevistados tinham conhecimento dessa condição e, ainda assim, seguiram com a contratação. Estamos assistindo à banalização da utilização de um dos principais instrumentos de proteção financeira do trabalhador brasileiro.
É como utilizar a própria rede de segurança para resolver uma urgência momentânea.
O problema é que, quando uma nova emergência surgir, essa proteção poderá não estar mais disponível.
O cenário se torna ainda mais preocupante quando observamos que 58% das pessoas que apenas simularam o crédito afirmaram não buscar nem pretender buscar orientação sobre educação financeira. Isso demonstra que estamos diante de um problema cultural, em que a urgência da solução imediata frequentemente se sobrepõe à análise das consequências futuras.
Essa contradição precisa ser enfrentada.
O acesso ao crédito não pode ser tratado como política isolada de inclusão financeira. Sem educação financeira, o crédito pode deixar de ser uma ferramenta de apoio para se transformar em um acelerador de problemas econômicos futuros. Sem contar que isso afeta diretamente a saúde mental dos trabalhadores.
É nesse contexto que as empresas passam a desempenhar um papel estratégico. Durante décadas, organizações limitaram sua atuação ao oferecimento de benefícios financeiros ou convênios de crédito. Hoje, essa postura já não é suficiente.
Se a saúde financeira impacta diretamente a saúde emocional, a produtividade, o engajamento e a qualidade de vida dos colaboradores, então a educação financeira deve ocupar espaço permanente nas políticas de bem-estar corporativo.
Entretanto, é preciso reconhecer que o desafio não será resolvido por meio de ações pontuais. Palestras isoladas, campanhas esporádicas ou iniciativas realizadas apenas em momentos de crise dificilmente conseguem produzir mudanças consistentes em comportamentos que foram construídos ao longo de décadas. A relação das pessoas com o dinheiro é resultado de hábitos e padrões familiares profundamente enraizados, que não se transformam em um único encontro ou treinamento.
Por isso, as empresas que desejam efetivamente contribuir para a saúde financeira de seus colaboradores precisam avançar para programas estruturados de Educação do Comportamento Financeiro, com acompanhamento contínuo e duração entre 12 e 36 meses. Somente uma jornada de longo prazo é capaz de desenvolver consciência financeira, estimular novos hábitos, promover mudanças na forma como o trabalhador utiliza o crédito, organiza seu orçamento e toma decisões relacionadas ao dinheiro. E ainda se torna essencial que esse conhecimento alcance a família, que é onde consumo realmente acontece.
Mais do que ensinar conceitos financeiros, trata-se de ajudar o colaborador a construir uma nova relação com seus recursos, baseada em planejamento, equilíbrio e sustentabilidade. Afinal, a verdadeira educação financeira não está em aprender sobre juros ou orçamento apenas uma vez, mas em transformar comportamentos para que as decisões financeiras sejam mais conscientes ao longo de toda a vida.
Não se trata de impedir que o trabalhador utilize crédito, até porque isso não está mais nas mãos da empresa, estando disponível na carteira digital sem qualquer possibilidade de interferência do empregador. Trata-se de garantir que ele compreenda integralmente as consequências da decisão que está tomando.
A verdadeira inclusão financeira não acontece quando alguém consegue contratar um empréstimo. Ela acontece quando essa pessoa possui conhecimento suficiente para decidir se realmente precisa dele, compreender seu custo total e avaliar seus impactos no presente e no futuro.
Enquanto continuarmos celebrando apenas a ampliação da oferta de crédito e negligenciando a educação financeira, estaremos correndo o risco de transformar milhões de trabalhadores em devedores permanentes de um sistema que lhes oferece dinheiro com facilidade, mas raramente lhes oferece conhecimento na mesma proporção.
Por isso, diante da enxurrada de ofertas e promessas que cercam o consignado, vale recordar um princípio simples, mas extremamente atual: nem tudo que reluz é ouro.
Reinaldo Domingos é presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN) e da DSOP Educação do Comportamento Financeiro, PhD em Educação Financeira, escritor e criador da Metodologia DSOP de Educação Financeira.